Cada um sente diferente

Por Renato Martinelli

Cada um sente diferente

Cada indivíduo tem sua própria maneira de sentir e experimentar emoções, moldada por uma combinação complexa de experiências de vida, personalidade e biologia. A empatia desempenha um papel crucial na compreensão dessas diferenças e na conexão com os outros.

Ao reconhecer e respeitar as emoções únicas de cada pessoa, podemos construir relacionamentos mais fortes e significativos. A empatia nos permite entrar no universo emocional de outra pessoa, mesmo que temporariamente, o que pode ajudar a dissipar mal-entendidos e promover a compreensão mútua.

Foto: Aquivo Pessoal

Além disso, ao manter uma mente aberta para diferentes perspectivas emocionais e mentais, enriquecemos nossa própria compreensão do mundo e promovemos um ambiente mais inclusivo e acolhedor. Isso não apenas beneficia as relações interpessoais, mas também contribui para o bem-estar emocional e mental de todos os envolvidos.

A Hipnoterapia pode promover o autoconhecimento, potencializar o desenvolvimento pessoal,  a saúde mental e física.

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Hipnose funciona? Saiba em que casos a técnica tem eficácia comprovada

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Reportagem
Redação Terra Você

Hipnose funciona?

Saiba em que casos a técnica tem eficácia comprovada

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A Hipnoterapia ganha credibilidade no tratamento das mais variadas disfunções físicas e mentais, segundo especialista

Reconhecida pelos conselhos de Medicina, Psicologia, Odontologia, Fisioterapia e Enfermagem e até pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a Hipnose se transformou em uma ferramenta extremamente eficaz no tratamento de várias patologias, condições físicas e emocionais.

De acordo com a Terapeuta Holística e Hipnoterapeuta Cristiane Comerian, do Instituto Lírios de Saúde e Bem-estar, a Hipnoterapia vem sendo cada vez mais utilizada em processos terapêuticos de cura e transformação pessoal, para auxiliar na mudança de hábitos.

A terapeuta explica que a Hipnose é um estado de consciência alterado que envolve atenção focada e consciência periférica. Durante a sessão, que dura em torno de meia hora, o profissional induz o paciente a um estado de relaxamento profundo, que lhe permite explorar questões subconscientes, tornando a pessoa mais receptiva a ideias e mudanças comportamentais.

A terapeuta explica que a Hipnose é um estado de consciência alterado que envolve atenção focada e consciência periférica. Durante a sessão, que dura em torno de meia hora, o profissional induz o paciente a um estado de relaxamento profundo, que lhe permite explorar questões subconscientes, tornando a pessoa mais receptiva a ideias e mudanças comportamentais.

“No Estado Hipnótico,
a pessoa não está adormecida,
nem inconsciente, apenas relaxada”

Cristiane

Qualquer que seja o seu uso, entretanto, a hipnose não é usada como tratamento único, e sim como complemento. Ela ressalta que não existe contra indicação. “É um procedimento totalmente seguro se executado da maneira correta e por um profissional qualificado”, diz.

De acordo com a profissional, a hipnose clínica tem mostrado bons resultados para tratamento de vícios, como exemplo, o tabagismo, e de distúrbios mentais, como ansiedade, fobias, compulsões, assim como disfunções físicas como dores crônicas, para redução do estresse e até para colocação de balão gástrico para emagrecimento.

Segundo Cristiane, além dos benefícios mais conhecidos, a Hipnose vem fazendo a diferença também no bem-estar de pacientes, proporcionando sono de qualidade, além de superação de traumas e insegurança.

Apesar dos resultados duradouros, em algumas situações, a hipnose precisa ser feita mais de uma vez para fortalecimento da nova ideia. É por meio da comunicação que se é modificada a nova sugestão”, destaca a terapeuta. “De qualquer forma, por meio da anamnese podemos avaliar qual a melhor técnica a ser usada”, conclui.

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O lado sério da Hipnose

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Guilherme Pavarin e Tiago Mali
Revista GALILEU

O lado sério da Hipnose

A ciência explica como a técnica tem ajudado pacientes a deixar de fumar, perder peso, combater estresse e tratar dores crônicas

A psicóloga Lina Schlachter ouve gritos vindos da emergência do centro médico da Universidade de Tennessee, nos Estados Unidos, e se apressa. No corredor do setor de traumas, depara-se com um mecânico de 42 anos urrando de dor. Ele teve a perna direita destroçada após um acidente em uma das fábricas da região e está imobilizado, suando muito. Após encontrar com Lina, pouco a pouco, os gritos do paciente se transformam em gemidos, cada vez mais baixos. Dez minutos depois, ele relata que a dor, antes insuportável, não o incomoda mais. No lugar, diz haver apenas um formigamento. Tudo isso, sem nenhum sedativo.

A cearense Lina, doutora em psicologia clínica pela Universidade do Tennessee, não faz mágica. “Foram exercícios de respiração e uma série de sugestões para que ele se concentrasse, pensasse no lugar de que mais gosta de passear e começasse a relaxar”, diz. O caso do acidente, apresentado em uma conferência médica nos Estados Unidos em 2008, é um exemplo de como a medicina tradicional tem se aliado a certas técnicas de Hipnose para combater diversos problemas de saúde. Ele se soma a uma série de pesquisas publicadas em alguns dos periódicos científicos mais rigorosos do mundo, como Science, The Lancet e Proceedings of the National Academy. E o que esses estudos afirmam? Que dá, sim, para tratar dores crônicas, insônia, enxaqueca, obesidade, vícios, fobias, doenças de pele, entre outros males, com Hipnose. Mas não é aquela Hipnose de estalar dedos e fazer com que o problema desapareça. São sessões com método definido, em tratamentos que podem levar meses.

Não à toa, há cada vez mais cientistas e pesquisadores “Hipnotizados” pelo tema. O número de estudos publicados por ano sobre o assunto cresceu 50% na última década, chegando a 280 só em 2009 (último ano com números fechados), segundo o banco de dados científico Pubmed. Entre as pesquisas recentes, destaca-se levantamento com 124 mulheres realizado em 2010 na Universidade de Stanford que constatou que a prática da Hipnose pode atenuar o sofrimento de pacientes com câncer de mama. Outro trabalho, feito em 2008 na Universidade da Califórnia, avaliou fumantes que usaram a técnica para largar o cigarro — o grupo de Hipnotizados teve 50% mais sucesso no tratamento em relação ao outro time.

Quem Hipnotiza hoje não são showmen com ar sombrio, jeito de ilusionista e papo de charlatão. Os novos Hipnotizadores têm diploma de médico, psicólogo ou dentista, e preferem ser chamados de Hipnólogos. Não se encontram em programas de variedades, mas em locais como o Hospital das Clínicas, o A.C. Camargo e o São Camilo, todos em São Paulo, além de clínicas médicas renomadas. “A prática vem crescendo bastante no Brasil, principalmente contra problemas de somatização, quando uma doença se manifesta ou se agrava por causa de algum distúrbio emocional. Os conselhos federais de medicina, psicologia, odontologia e fisioterapia já a aprovam”, diz a psicóloga Miriam Pontes, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose, que conta com 2 mil profissionais associados em todo o Brasil.

Victor Affaro

BISTURI SEM ANESTESIA

Ao saber que teria de arrancar um nódulo mamário no seio, a diarista Andreia Peres Maranhão, 34 anos, ficou com medo de não conseguir mais amamentar. Ela havia acabado de ter um bebê e, com o efeito dos anestésicos, o leite poderia ser comprometido. Quando a anestesista Cristiane Hikiji lhe contou sobre a possibilidade de realizar anestesia por Hipnose, Andreia decidiu experimentar. Foram 12 sessões preparatórias até a cirurgia. “Já tinha tirado outro tumor no seio e foi difícil recuperar, mas com a Hipnose foi rapidinho, não doeu em nenhum momento”.

Como funciona

Olhe fixamente nos meus olhos e esqueça toda aquela ideia de pêndulo, comer cebola achando que é maçã, cocoricar feito um galo e outras pirotecnias. Cientificamente falando, a Hipnose é um estado em que a percepção, a memória e as ações de alguém podem ser alteradas por sugestão de outra pessoa. Alguns têm facilidade imensa em serem Hipnotizados; outros, raramente conseguem. “O indivíduo fica consciente, mas o cérebro temporariamente suprime as tentativas de confirmar as informações vindas dos sentidos. O senso crítico baixa e há uma atenção maior no que o hipnotizador sugere”, diz Osmar Colás, coordenador do Grupo de Estudos da Hipnose da Escola Paulista de Medicina. Trabalhada adequadamente, essa hiperatenção pode, por exemplo, fazer com que a gente ignore sensações enviadas pelo corpo. É como um jogador de futebol quando sofre uma pancada forte na perna durante a final do campeonato, mas continua jogando, só sentindo a dor depois do término da partida.

No cérebro, já descobrimos algumas das regiões onde esse fenômeno ocorre. Estudos com neuroimagens mostram que o giro do cíngulo anterior direito, uma área responsável por levar informações dos sentidos até a nossa parte racional, é atingido pela Hipnose. “A sugestão chega a essa região intermediária, que é quem vai decidir para onde vai a atenção, como se inoculasse um pensamento na cabeça da pessoa”, diz Mohamad Bazzi, médico brasileiro que estuda Hipnose há duas décadas. É ali que pesquisadores acreditam que a “autentificação” falha.

Foi provavelmente o que aconteceu com o mecânico citado no começo desta reportagem quando, após as repetidas sugestões, deixou de se focar na informação de dor da perna destroçada. O caso dele, no entanto, não é regra: apenas 10% da população mundial é altamente suscetível à Hipnose (veja como isso é medido no quadro abaixo). Para pessoas menos passíveis, leva-se tempo até chegar a um transe profundo — e, ainda assim, não há garantia de que ela consiga atingir esse estado. A diarista Andreia Peres Maranhão, 34 anos, por exemplo, precisou passar por 12 sessões durante um mês até estar pronta para uma cirurgia de retirada de um nódulo mamário, feita em transe Hipnótico. “Já tinha tido uma experiência ruim com anestesia antes e estava amamentando [a amamentação teria de ser interrompida por conta do uso do sedativo]”, diz.

Durante as sessões, a anestesista Cristiane Hikiji Nogueira fazia com que Andreia treinasse seu cérebro a desviar a dor. No começo, girava uma caneta em frente aos olhos da paciente, que começava a relaxar. Então, passava a espetar Andreia com agulhas finas e dizia que aquela região não seria mais sentida. Nas sessões seguintes, conforme ela ia conseguindo ignorar a dor, o diâmetro das agulhas aumentava até se aproximar do tamanho que seria equivalente ao bisturi. Os anestésicos tradicionais também foram preparados na operação, para o caso de emergências, mas se mostraram desnecessários. “Já fiz mais de 30 cirurgias só com Hipnose e nunca tive problemas”, afirma Cristiane, que Hipnotizou Andreia no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Como toda essa preparação é demorada, a Hipnose na maioria das vezes acaba sendo a segunda opção, usada principalmente quando o paciente tem pavor ou alergia à anestesia.

Também é possível juntar as duas coisas: Hipnose e anestésicos. Foi o que fez a professora paulistana Gabriela Talarico, 32 anos, ao retirar dois dentes do siso. Gabriela, que tinha medo demais de anestesia, estava em pânico quando chegou ao consultório do dentista Marcelo Martins. Com repetidas sugestões de relaxamento, Martins fez Gabriela entrar em transe, ficando menos suscetível às reações de dor, e administrou apenas um terço da quantidade normal de anestésico. “Como não houve preparação, a Hipnose não foi tão profunda, mas foi o suficiente para acalmá-la e obter melhorias de cicatrização e de controle de sangramento”, afirma.

No Centro de Dor do Hospital das Clínicas de São Paulo, técnicas mais longas são ensinadas para lidar com dores crônicas como enxaqueca e fibromialgia. “Ensinamos exercícios de Auto-Hipnose para que os pacientes repitam em suas casas”, diz Adriana Loduca, psicóloga do hospital. Uma das técnicas começa com exercícios de respiração em seis etapas e depois evolui para concentração em algum tipo de imagem, para que o cérebro se desvie da dor.

Victor Affaro
TERAPIA CONTRA O FUMO

Acostumado a fumar um maço de cigarros por dia, o auxiliar de enfermagem Anderson Soares da Silva, 34 , tentou usar adesivos e remédios para parar. “Ficava irritado demais.” Ele se livrou do vício no fim de 2009, quando experimentou a Hipnose aliada à psicoterapia por três meses. Nas sessões, o médico Luiz Velloso pedia para que ele imaginasse o cheiro forte do cigarro na sala vazia até se tornar algo incômodo. Depois, sugeria imagens de praias paradisíacas e mensagens metafóricas para reforçar sua força de vontade em largar o fumo. “Nunca mais senti vontade”, afirma.

A ciência da Hipnose

Apesar de impressionantes, exemplos desse tipo eram antes encarados com ceticismo por acadêmicos. Como provar que não se tratava de efeito placebo, ou que alguns desses casos não eram forjados? A maior parte dessas dúvidas caiu em 1998, quando os cientistas com Ph.D. Stephen Kosslyn, da Universidade de Harvard, e David Spiegel, de Stanford, usaram o PET (tomografia por emissão de pósitrons, um exame de imagem sofisticado) para “fotografar” a Hipnose. Eles sugestionaram indivíduos a enxergarem cores em um painel preto e branco e constataram que os cérebros agiam como se realmente existissem cartazes coloridos na frente. “O fluxo sanguíneo no cérebro repetiu o padrão de quando a pessoa enxerga colorido. Ou seja, o cérebro estava realmente ‘vendo’ aquilo”, diz Spiegel, que estuda hipnose desde os anos 1970.

Considerado um divisor de águas, o estudo gera frutos até hoje. Tanto que, em 2010, o pesquisador Devin Terhune, de Oxford, usou um princípio parecido para mostrar como a Hipnose poderia ser usada para um feito antes tido como impossível: reverter a sinestesia. A doença rara leva a uma confusão de sentidos no cérebro, como, por exemplo, enxergar imagens inexistentes ao ouvir determinados sons. No caso da voluntária tratada pelo experimento, cores fortes surgiam no seu cérebro todas as vezes em que ela via um rosto. Induzindo o transe, Terhune desviou o “caminho cerebral” durante o fenômeno fazendo com que ela ignorasse as cores que apareceriam em sua mente. Um eletroencefalograma confirmou o efeito. “Ela relatou que não tinha mais espasmos de cor ao ver faces e, ao mesmo tempo, a área ligada à confusão mental no cérebro reduziu sua atividade elétrica”, afirma Terhune. O pesquisador ressalva que tudo isso só funcionou porque a voluntária era altamente Hipnotizável.

Victor Affaro

RETIRADA DE SISO DURANTE O TRANSE

Toda vez que ouvia falar em anestesia no dentista, a professora Gabriela Talarico, 32 anos, sentia a espinha arrepiar. Quando soube que teria que arrancar dois sisos, não conseguiu disfarçar a tensão. Para acalmá-la, o odontologista Marcelo Martins pediu para fazer alguns exercícios de Hipnose e teve uma resposta positiva. “Não doeu nada na hora ou depois”, diz Gabriela. “Senti uma calma fora do comum.” As sugestões Hipnóticas, segundo Martins, ainda fizeram a cicatrização ser três dias mais rápida e potencializaram o efeito do anestésico, usado em um terço da quantidade habitual.

Psicologia a mais

Atacar a dor é o efeito mais conhecido dessa reorganização mental, mas está longe de ser o único. A maior parte das possibilidades está na área de distúrbios psicossomáticos e comportamentais. Males como insônia, fobias, hipertensão e obesidade muitas vezes estão bastante relacionados a fatores psicológicos. É nesses casos — e não em todos — que a Hipnose pode dar uma boa ajuda. Foi o que mostrou em 1995 Irving Kirsch, um dos maiores especialistas em Hipnose clínica do mundo e Ph.D. em psicologia pela University of Southern California. Em uma grande revisão de estudos, Kirsch constatou que a prática melhorava, em 70% dos casos, os efeitos positivos das terapias baseadas em psicologia cognitivo-comportamental, que é a forma mais popular e difundida de tratamento para esses problemas.

A relações-públicas Simone Araújo, 35 anos, comprovou esse benefício. Ela sofre de dermatite atópica, uma doença incurável que provoca descamação, coceira e manchas avermelhadas pelo corpo, e que piora em momentos de estresse. Após tentar uma série de tratamentos e tomar dezenas de remédios, ela conseguiu uma grande melhoria do problema usando Hipnose aliada à psicoterapia. “Era minha última esperança. Antes, estava difícil até mesmo abraçar meus filhos porque eu sentia muita dor com a pele machucada. Hoje abraço, beijo e levo até beliscão”, diz Simone.

Ela trabalhou sua ansiedade nas sessões de Hipnose. Fazia uma série de exercícios de respiração que estimulavam o seu relaxamento até entrar em transe. Esse estado era realçado por instruções para imaginar situações de tranquilidade. “Amenizava a ansiedade, era como uma boa noite de sono. Sentia uma melhora grande até a próxima sessão.” O humor de Simone melhorava e, depois do segundo mês, as manchas também.

Se ajuda na parte psicológica, a Hipnose também tem efeito contra vícios como o tabaco e pode ser usada contra transtornos obsessivos compulsivos. Para o auxiliar de enfermagem Anderson Soares da Silva, 34 anos, a Hipnose foi o componente que faltava em seus tratamentos. Antes, ele havia tentado largar o cigarro com adesivos e até antidepressivos, mas ficava no máximo dois dias sem fumar. “Só deu certo quando juntei Hipnose a outros remédios. Foi um processo de dois a três meses até conseguir parar definitivamente”, diz Anderson Soares, que conta um ano sem cigarros.

Victor Affaro
SEM ESTRESSE

Logo depois que terminou a faculdade, a publicitária carioca Fabríssia Lima, de 23 anos, passou a enfrentar crises de ansiedade devido às pressões do trabalho. “Sentia muita angústia, ficava asfixiada, não conseguia frequentar lugares fechados, nem andar de metrô.” Por sugestão de uma conhecida, procurou a psicóloga Miriam Pontes para tentar dar uma aliviada no estresse e na tensão. Em menos de quatro meses, com uma sessão de Hipnose por semana, Fabríssia notou grandes melhorias no humor e na sua capacidade de concentração.

Perder peso

Imagine se alguém lhe dissesse que, para emagrecer, não seria necessário fazer cirurgia de estômago, mas apenas fingir ter feito uma? Pois é mais ou menos esse o tratamento já vendido a 500 pacientes por cerca de R$ 3.400 na clínica de Hipnose Elite, em Málaga, Espanha. A terapia também diz usar esse efeito psicológico da Hipnose. “O paciente é sugestionado a pensar que passou por uma cirurgia de redução de estômago”, diz o Hipnólogo espanhol Martin Shirran, sócio da empresa. Para aumentar o poder de persuasão, é armada uma espécie de teatrinho, simulando no ambiente cheiro, tato e sons típicos de um procedimento em uma sala de cirurgia. No final, diz Shirran, o paciente fica com uma imagem no inconsciente de que o estômago está menor, uma espécie de alucinação, e sente que não suporta muita comida. O tratamento virou febre no Reino Unido depois de ter sido usado pela cantora Lily Allen e pela ex-Spice Girl Geri Halliwell.

O arquiteto Felipe Caribe diz ter obtido sucesso com uma experiência parecida em Curitiba. Após várias outras tentativas, ele diz ter emagrecido 14 quilos em três meses de sessões de psicoterapia somadas à Hipnose. “Fui sugestionado a sentir que existe um balão inflado dentro do meu estômago que me impede de comer muito”, diz Caribe, que ainda tem 103 quilos e 1,80 m. Apesar da ideia extravagante, há estudos sérios mostrando que a Hipnose pode, sim, em casos relacionados à ansiedade, ajudar na redução de peso — embora nenhum cite esse tipo de “cirurgia Hipnótica”.

Futuro das pesquisas

Um dos próximos passos da ciência da Hipnose se aproxima um pouco do teatrinho da clínica espanhola. Há um grupo de cientistas ingleses da Universidade de Greenwich estudando como um ambiente de realidade virtual pode potencializar os efeitos da prática. Outra frente de pesquisadores tenta entender as características genéticas que levam algumas pessoas a serem mais Hipnotizáveis que outras. Pelo menos quatro estudos já mostraram que um gene chamado COMT está relacionado à suscetibilidade, mas sua ação exata ainda não é totalmente compreendida.

Há também vários grupos de estudo que desejam simular doenças por meio de Hipnose para entendê-las melhor. Um dos líderes dessa corrente é o britânico David Oakley, Ph.D. em psicologia clínica e professor da University College London. Ele publicou uma revisão de iniciativas na área em 2009, em que reúne experimentos nos quais pessoas são Hipnotizadas para sentir alucinações auditivas, calor e tipos diferentes de dor, fazendo com que o cérebro simule algo imaginário. Esses estados cerebrais induzidos poderiam ser usados em um ambiente controlado para entender melhor como algumas doenças afetam as pessoas. Uma que já está sendo pesquisada é o transtorno de conversão, que pode gerar paralisia, cegueira e dificuldades motoras.

Outros estudos interessantes são desenvolvidos pelo neurocientista israelense Avi Mendelsohn, que mostrou como o cérebro de pessoas suscetíveis ao esquecimento após a Hipnose (10% da população) pode bloquear a ativação da memória. Seus estudos também apontam a possibilidade de criar lembranças falsas. “No futuro acredito que muitos poderão usar a Hipnose para bloquear as memórias que estão perturbando suas vidas, ou ao menos suprimir emoções ruins ligadas a essas recordações”, afirma.

Cuidados

Há muito de hi-tech nas novas pesquisas, mas o que a maioria dos cientistas da área ainda quer é confirmar a eficácia do tratamento para outros tipos de doenças. “Há um esforço em melhorar a qualidade dos estudos. Alguns são bons, mas boa parte ainda precisa se adequar a padrões de qualidade mais altos para não serem contestados”, afirma Donald Robertson, diretor do UK College of Hypnosis & Hypnoterapy, que revisou dezenas de estudos sobre o tema.

Com mais e mais livros a respeito (só na Amazon, foram registradas 660 novas publicações em 2010), há a tentação de se “provar” rapidamente a eficácia contra vários males. “Temos que entender que a Hipnose não é uma panaceia, não tem nada de milagroso. Para a maioria das pessoas, só funciona junto com outras técnicas e em um tratamento prolongado. Ninguém vai dizer ‘pronto, a partir de agora você não fuma mais’. Isso não existe”, diz Mohamad Bazzi.

Reportagem na fonte:
https://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI198264-17773,00-O+LADO+SERIO+DA+HIPNOSE.html

Como Hipnose pode ser usada para reduzir anestesia, segundo médicos

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Laura Plitt
BBC News Mundo

Como Hipnose pode ser usada para reduzir anestesia, segundo médicos

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A Hipnose pode ser empregada em procedimentos menos complexos, em combinação com medicamentos e anestesia local, segundo médicos

“Pense em um lugar lindo, tranquilo e seguro e fique confortável”, diz uma suave voz feminina, em um tom propício para convidar as pessoas a se acalmarem.

“Agora, inspire bem lentamente e solte o ar bem devagar, suavemente”, prossegue, com a mesma serenidade do princípio.

Esta voz é parte de uma série de áudios publicados na página do Colégio Real de Anestesistas do Reino Unido (RCoA, na sigla em inglês). A entidade publicou recentemente um apelo para que estas gravações sejam mais utilizadas nos momentos que antecedem intervenções cirúrgicas.

A ideia é conduzir o paciente, por meio da Auto-Hipnose, a um estado de relaxamento para reduzir seu nível de ansiedade antes de entrar na sala de cirurgia.

O objetivo das gravações é servir também de “recurso (elaborado, testado e modificado considerando seus resultados) a ser oferecido aos pacientes, em vez de recomendar a eles que procurem as informações na internet”, segundo conta à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) a pediatra e anestesista Samantha Black, que colaborou para o desenvolvimento dos áudios.

As evidências indicam, segundo ela, que esta preparação psicológica prévia (ao lado da ingestão de alimentos nutritivos e da prática de exercícios físicos) melhora os resultados da cirurgia.

Outros países europeus e os Estados Unidos deram um passo adiante: em alguns hospitais, esta técnica não é utilizada antes, mas também durante a cirurgia.

Diversos estudos e testes clínicos aleatórios (alguns deles, elaborados nos Estados Unidos, Bélgica e França) demonstraram que o uso da Hipnose – também chamada de Hipnossedação ou hipnoterapia – ajuda a reduzir a dose de anestésicos durante as intervenções cirúrgicas, bem como o tempo e a necessidade de calmantes no período de recuperação.

'Filtrar a dor'

A Hipnose é um estado em que a atenção é altamente concentrada. A consciência da pessoa sobre o que acontece ao seu lado é limitada.

Geralmente, este estado é atingido com a ajuda de outra pessoa que nos orienta com suas palavras até induzir o transe hipnótico. Mas também é possível praticar a auto-hipnose.

No estado Hipnótico, a pessoa não está adormecida, nem inconsciente – apenas relaxada.

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O professor David Spiegel compara o Estado Hipnótico com o que ocorre quando ficamos totalmente compenetrados vendo um filme

“Você se desconecta, dissocia-se do que acontece na periferia da sua consciência e entra em um estado de flexibilidade cognitiva”, explica o professor David Spiegel, do Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Você está mais aberto a experimentar ideias e ter novas experiências, deixando de lado sua forma habitual de fazer as coisas.”

No contexto da cirurgia, o paciente é levado a dirigir sua atenção para outro lugar que não seja o seu corpo. Esta técnica é empregada “para reestruturar a experiência do procedimento cirúrgico”, acrescenta ele.

Em outras palavras, você instrui o seu cérebro a “filtrar a dor, literalmente ignorando a sensação e concentrando-se em estar em outro lugar”.

Spiegel é líder em pesquisas sobre hipnose clínica. Ele compara este estado com assistir a um filme que nos fascina e nos absorve por completo, a ponto de nos fazer esquecer, por alguns momentos, que somos parte do público, de tão compenetrados que ficamos com o drama que se desenvolve na tela.

O mesmo processo acontece quando entramos no automóvel e dirigimos para algum lugar, segundo a professora Elizabeth Rebello, do Departamento de Anestesiologia e Medicina Perioperatória do Centro Oncológico M. D. Anderson, no Texas (Estados Unidos).

“Enquanto dirige, você está pensando no que precisa fazer durante o dia, algo sobre a sua família e, de repente, percebe que já chegou”, explica ela. “Isso é um pouco do que faz a hipnose.”

Efeito no cérebro

Tecnicamente falando, a hipnose gera três efeitos no cérebro. Spiegel afirma que já observou estas mudanças em estudos de imagem por ressonância magnética funcional (IRMf) durante suas pesquisas:

1. Existe uma redução da atividade na zona dorsal do córtex cingulado anterior, uma região do cérebro que nos ajuda a manter a atenção sobre o que acontece ao nosso redor.

2. Ela aumenta a conexão entre duas regiões do cérebro (o córtex pré-frontal dorsolateral e a ínsula). Esta conexão “cérebro-corpo” ajuda o cérebro a processar e controlar o que acontece no corpo.

3. As conexões entre o córtex pré-frontal dorsolateral e a rede neuronal são reduzidas, o que provavelmente representa uma desconexão entre as ações de uma pessoa e a consciência sobre as suas ações (como ocorre quando estamos fazendo algo sem realmente pensar no que estamos fazendo). Esta dissociação permite à pessoa responder às instruções durante a hipnoterapia sem dedicar recursos mentais para tomar consciência daquilo.

Complemento

O objetivo dos defensores do uso da hipnose na sala de cirurgia não é substituir a anestesia geral pela Hipnossedação em cirurgias de alta complexidade. A intenção é usá-la como complemento em intervenções mais simples e de menor duração, em conjunto com a anestesia local.

É precisamente o que vem fazendo, há vários anos, uma equipe de médicos e pesquisadores do Centro Oncológico M. D. Anderson, da Universidade do Texas.

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Cirurgia com Hipnossedação em um hospital da Bélgica, em 2004

Rebello e sua equipe utilizam a hipnossedação em pacientes que se submetem à tumorectomia – uma cirurgia para retirar uma massa tumoral cancerosa ou anormal da mama. Este procedimento normalmente é feito com anestesia geral.

Antes da hipnose durante a operação, os pacientes abertos a esta ideia fazem sessões prévias com o mesmo profissional.

Quando o paciente entra na sala de cirurgia, uma equipe interdisciplinar fica em comunicação constante e monitora os seus níveis de conforto, aumentando a medicação ou a anestesia local em função das suas necessidades.

“É um ambiente muito seguro, pois estamos em uma sala de cirurgia”, explica Rebello. “E, se for necessário passar para a anestesia geral, você tem ali todo o necessário.”

Ela enfatiza que esta é uma opção viável para alguns procedimentos, em um certo grupo de pacientes.

Benefícios

Os benefícios da hipnose são muitos, segundo os médicos consultados pela BBC News Mundo.

Além de reduzir a ansiedade antes e durante o procedimento, a hipnose permite diminuir a dose de anestesia e sedativos – e, consequentemente, as náuseas, vômitos e outros incômodos que afligem muitas pessoas.

Os pacientes também não ficam atordoados ou entorpecidos, como ocorre com a anestesia geral, e estão quase prontos para ir para casa quando o procedimento é finalizado.

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A Hipnose é empregada no campo da medicina há vários anos, mas ainda é rodeada de uma aura de pseudociência

Elizabeth Rebello também destaca que o uso da hipnose tem o potencial de reduzir o consumo de opioides, necessários em menor dose durante e após a cirurgia.

Outro benefício de evitar a anestesia geral quando for possível é que ela “pode causar déficit cognitivo a curto e a longo prazo”, segundo Lorenzo Cohen, diretor do Programa de Medicina Integrativa do Centro Oncológico M. D. Anderson, da Universidade do Texas.

“E, além disso, existem evidências de que ela causa supressão imunológica, o que não queremos que aconteça quando tentamos controlar o crescimento do câncer”, explica o médico, em referência às tumorectomias (cirurgias para a remoção de nódulo) realizadas na sua instituição.

Desvantagens

Com todas as vantagens da Hipnossedação, resta perguntar por que ela continua sendo uma prática clínica pouco utilizada, mesmo ganhando terreno nos últimos anos.

Um dos obstáculos é que nem todas as pessoas podem ser hipnotizadas.

“É uma característica permanente, como o coeficiente intelectual”, segundo Spiegel. “Em certa medida, a maioria das pessoas é suscetível à hipnose. Mas existem 25% dos adultos que não são.”

Ele acredita que esta variabilidade pode ter causas genéticas.

Além disso, os profissionais precisam dedicar mais tempo de treinamento aos pacientes que se preparam para a cirurgia e monitorá-los com mais cuidado durante a operação.

Outras opiniões contrárias indicam que o uso da hipnose não é indicado para cirurgias de maior porte, envolvendo órgãos internos, e de longa duração. Nestes casos, a dor seria insuportável.

E também não se pode esquecer que, embora haja numerosos estudos publicados em meios científicos reconhecidos confirmando sua eficiência em determinados contextos, a hipnose ainda carrega uma aura de pseudociência, mais próxima do mundo do entretenimento do que da medicina, desde a era vitoriana.

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Muitas pessoas associam a Hipnose à imagem típica do relógio ou pêndulo movendo-se diante dos nossos olhos – algo completamente fora da realidade

“Ela ainda carrega este estigma que vincula a hipnose aos programas de televisão do passado, mais do que ao mundo da medicina”, destaca Samantha Black. Mas ela acredita que esta visão esteja mudando lentamente, à medida que aumenta o acesso à hipnose e surgem novos cursos de treinamento sobre a prática para médicos e anestesistas.

David Spiegel acredita que a hipnose não é utilizada de forma mais ampla no campo da medicina porque, por trás desta metodologia, não existem grandes companhias farmacêuticas ganhando dinheiro com ela.

“Parte do problema é que não temos um bom modelo econômico para disseminar esta prática”, conclui o professor.

Reportagem na fonte:
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgr627d3nzyo

Os efeitos da Hipnose contra a depressão

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Hannah Seo 
The New York Times

Os efeitos da Hipnose contra a depressão

Foto: Dadu Shin

Hoje, a Hipnose, também chamada de Hipnoterapia, tem muito mais dados para respaldar seu uso em casos como ansiedade e depressão

Na década de 1770, um médico alemão chamado Franz Mesmer causou um alvoroço quando disse que poderia curar doenças físicas e mentais colocando as pessoas em transe para realinhar seus campos magnéticos. O “mesmerismo” ficou popular por cerca de uma década até ser publicamente desacreditado em 1784, embora alguns elementos da prática ainda persistiram.

Em 1841, o cirurgião escocês James Braid começou a usar uma técnica semelhante de atenção fixada para curar dores de cabeça, aliviar a dor e anestesiar os pacientes. Ele chamou isso de “Hipnose”, em homenagem a Hypnos, o deus grego do sono.

Hoje, a Hipnose, também chamada de Hipnoterapia, tem muito mais dados para respaldar seu uso em transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão. Estudos mostram que a técnica também pode ser um tratamento eficaz para problemas no sono, dor, síndrome do intestino irritável (SII) e para quem quer parar de fumar. Além disso, ainda é usada ocasionalmente como uma maneira de sedar pacientes para cirurgias usando pouca (ou nenhuma) medicação.

Mesmo com todas essas aplicações, a Hipnose parece não conseguir abandonar sua reputação de atração de circo – na qual você olha para um relógio de bolso e então começa a cacarejar como uma galinha – ou uma maneira de resgatar memórias perdidas e sondar “vidas passadas”. (O primeiro pode ser enganoso e o último é pseudociência.)

Especialistas dizem que a técnica requer diligência e foco, semelhante à atenção plena (mindfulness) e à meditação.

O que é Hipnose?

A maneira mais simples de descrever a Hipnose é como um estado de relaxamento profundo e atenção concentrada, onde sua mente fica mais receptiva a fazer mudanças sutis em sentimentos e comportamentos.

A intensa concentração e foco da Hipnose podem soar estranhos, mas, segundo a radiologista e fundadora da Comfort Talk, Elvira Lang:

– [Não é diferente de] estar absorto em um bom livro ou filme, navegar na internet ou se perder no telefone – explica. A empresa de Lang oferece um serviço que treina equipes médicas para reduzir a ansiedade e a dor em pacientes hospitalares usando linguagem hipnótica (chamada assim, porque as pessoas costumam ter medo do que ela chama de “a palavra com H”). Você fica absorto, menos consciente de seu ambiente físico ou sensorial, extasiado e ainda à vontade.

A Hipnose terapêutica formal tem algumas etapas. Primeiro, um hipnotizador tentará induzir um estado hipnótico fazendo com que você relaxe e se concentre em suas palavras. Assim que você for induzido, eles falarão com você através de sugestões com base em seus objetivos para aquela sessão. Por exemplo, se você está tentando superar o medo de voar, eles podem dizer que o avião é uma extensão do seu corpo e fazer você se imaginar flutuando com o avião no céu.

O paciente deve estar tão concentrado nas palavras do hipnotizador que todo o resto desaparece, explica David Spiegel, psiquiatra da Universidade de Stanford e um dos principais pesquisadores da Hipnose. O objetivo é que as sugestões que a pessoa ouve nesse estado de transe mudem sua perspectiva, sentimentos e, eventualmente, comportamentos.

Além da Hipnose presencial tradicional, há sessões de Hipnose online e uma série de aplicativos com vídeo e áudio pré-gravados; alguns também marcam sessões com os hipnotizadores de maneira remota. Esses geralmente são genéricos e funcionam em problemas comuns, como insônia e tabagismo.

Quem pode se beneficiar da Hipnose?

Tonja Langis, de 47 anos, foi diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático complexo que, no seu caso, é acompanhado por dor crônica, ansiedade e perda de autoconfiança. Ela tem feito terapia individual e em grupo para traumas pelos últimos 11 anos e tentou uma variedade de tratamentos. Langis iniciou sessões de terapia de Hipnose em pequenos grupos há quase um ano e, agora, faz sessões individuais uma vez por semana com seu psicólogo em Nashville, no Tennessee.

Durante as sessões, Langis diz que há um “distanciamento das sensações de dor” que ela normalmente sente, e que se sente “muito confortável” em seu corpo.

– Parece um estado de relaxamento mais profundo do que a meditação – relata.

A dor de cada pessoa é única, com diferentes causas e reações ao tratamento. Mas, segundo Afik Faerman, pesquisador de pós-doutorado em neuropsicologia clínica que trabalhou com Hipnose, “está muito claro agora” que a Hipnose pode ser eficaz para a dor. Ele explica que o controle da dor é uma das aplicações mais estudadas da Hipnose, com pesquisas sugerindo que é eficaz para ajudar as pessoas a lidar com dores agudas e crônicas .

Langis conta que a Hipnose a ajudou com a síndrome do intestino irritável (SII). Ela destaca que, desde o início da sessão:

– Só tive duas crises, o que é uma grande redução para mim.

As condições com as quais Langis lida – dor crônica, síndrome inflamatória intestinal (SII), estresse e ansiedade – são algumas das quais a Hipnose é mais comumente usada, além de também ser frequentemente usada para insônia e dependência. Porém, ela não vai funcionar com todos.

Pessoas com transtornos mentais extremos, esquizofrenia e outras formas de psicose não são bons candidatos à Hipnose, ressalta Lang, em parte porque tendem a não ser hipnotizáveis e também porque o tratamento pode ser emocionalmente difícil para pessoas com essas condições.

A própria hipnotizabilidade é outra limitação. Uma pessoa pode sucumbir imediatamente e prontamente aceitar as sugestões, enquanto outra nunca sentirá que está entrando em um estado hipnótico.

A capacidade de ser hipnotizado reside em uma curva em forma de sino, explica Spiegel. A pesquisa sugere que 10% a 15% das pessoas são incrivelmente hipnotizáveis, enquanto outros 10% a 15% se esforçam para serem hipnotizados ou até mesmo não conseguem ser. O resto, a maior parte das pessoas, está em algum lugar no meio – de leve a moderadamente hipnotizável.

É difícil dizer o quão hipnotizável alguém é sem uma triagem formal. A radiologista Lang conta que viu pessoas extremamente céticas se tornarem muito hipnotizáveis, e pessoas animadas para tentar a Hipnose descobrindo que a técnica não funciona para elas.

– Vejo a Hipnose como um talento ou uma habilidade – defende Mark P. Jensen, psicólogo da saúde na University of Washington School of Medicine, comparando a habilidade com um bom ouvido para música. – Algumas pessoas são Mozarts, mas a maioria de nós, não.

A Hipnose é melhor aplicada quando combinada com diferentes tipos de terapia, como a terapia cognitivo-comportamental, esclarece o pesquisador Faerman.

– A Hipnose junta com a TCC é mais eficaz do que qualquer uma delas individualmente – defende, como evidenciado em pesquisas sobre sua eficácia no tratamento de obesidade, dor e angústia em pessoas com fibromialgia e transtorno de estresse agudo .

Para Lindsey C. McKernan, uma psicóloga do Vanderbilt University Medical Center que usa a Hipnose em seus tratamentos, o treinamento da técnica veio com seu treinamento para psicóloga. Mas, nem todo psicólogo clínico necessariamente terá esse treinamento. Para encontrar um hipnotizador, a pessoa deve primeiro procurar terapia com um terapeuta licenciado que possa trabalhar com ela na Hipnose ou encaminhá-la para alguém que possa. (Os especialistas recomendam primeiro consultar um profissional licenciado antes de começar com aplicativos ou gravações.)

Se você tentar, espere trabalhar nisso.

Como hipnotizador, o psiquiatra Spiegel afirma:

– Meu trabalho é identificar sua capacidade de ser hipnotizado, e estimulá-lo e ensiná-lo a usar essa capacidade para resolver um problema. – Como em outras terapias, ver os resultados da Hipnose requer tempo e prática. Se a pessoa está enfrentando uma doença crônica, será necessário um tratamento regular.

Rachael Howe, de 32 anos, tem dores crônicas nas costas desde que descobriu três hérnias de discos entre 2013 e 2016. Tanto a dor física quanto o sofrimento mental a impediam de ter uma boa noite de sono. Howe, que mora em Auburn, Washington, tentou anos de terapia física e psicoterapia, além de medicamentos, mas conta que eles não ajudaram muito.

Cerca de um ano e meio atrás, ela tentou uma sessão de Hipnose remota, indicada por um terapeuta anterior. Em uma sessão inicial de relaxamento e sono, a psicóloga a levou para um passeio imaginário pelas montanhas Cascade, onde Howe havia se casado.

Conforme caminhava, Howe lembra de sentir a dor desaparecer enquanto seu corpo afrouxava a tensão.

– Na verdade, acabei adormecendo – relata. A sessão foi encerrada e remarcada. – Não acredito que consegui algumas horas.

Howe tem feito muitas sessões desde então, concentrando-se em aumentar a calma, controlar a dor e reformular os pensamentos negativos.

– O cenário ideal é que os pacientes trabalhem com um hipnotizador e aprendam as habilidades para passar por essas sessões sozinhos – pontua David Patterson, terapeuta da Howe e especialista em dor e psicólogo clínico da University of Washington School of Medicine. Para ele, praticar dessa maneira é especialmente importante para condições “como dor crônica, em que você precisa de alívio por um longo período de tempo.”

Langis notou que o alívio imediato da dor e da fadiga que ela consegue através da Hipnose diminui depois de uns dias. Por isso, ela volta à técnica regularmente, passando por gravações de suas sessões anteriores. Afirma ainda que, com o passar do tempo, sente que está se aprofundando cada vez mais no estado hipnótico.

– Quanto mais eu pratico, mais eu vejo benefícios e, portanto, fico encorajada para praticar mais – confessa.

Depois de ouvir novamente as sessões e praticar para permanecer em estado hipnótico, Howe diz sentir que agora tem disciplina e habilidade para acalmar seu corpo e mente quando a dor aumenta.

– Não é como se funcionasse 100% do tempo – esclarece, mas afirma: – quanto mais você faz, mais você ganha com isso.

Reportagem na fonte:
https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2023/03/os-efeitos-da-hipnose-contra-a-depressao.ghtml

Deborah Secco faz sessão de Hipnose com a filha

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Patrícia Kogut
Jornal O Globo

Deborah Secco faz sessão de Hipnose com a filha, Maria Flor, e vive momento inusitado

Deborah Secco, o marido, Hugo Moura, e a filha, Maria Flor, passaram por uma sessão de hipnose com Tiago Garcia, ex-diretor da Globo que é especialista no assunto, pós-graduado em Neurociências e Comportamento. Ele conta que foi um convite da atriz, que passou por um momento curioso:

Deborah Secco e a filha, Maria Flor, com Tiago Garcia
Foto: Arquivo pessoal

— Eles puderam experimentar algumas sugestões hipnóticas e aprender como utilizar a Hipnose para gerenciar a ansiedade e dor, além de dormir e comer melhor. Deborah, que nunca tinha comido berinjela, comeu nesse dia, sentindo gosto de Nutella. Também ensinei para ela uma técnica chamada “luva mágica”. É para usar com a Maria Flor para reduzir a dor e a ansiedade antes e durante procedimentos médicos, como tomar uma vacina, por exemplo.

No início do ano, Marcelo Serrado também já tinha recorrido a Garcia. Seu objetivo era se preparar para viver o dublê Moacir de “Cara e coragem”. O diretor lançou, em 2021, o livro “Hipnose e neurociência – Explore o poder da sua mente”.

Confira os vídeos:

Deborah Secco, que nunca tinha comido berinjela na vida, comeu nesse dia, sentindo gosto de Creme de Avelã.
Veja o vídeo:

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Deborah Secco e a filha, Maria Flor, com Tiago Garcia
Vídeo: Tiago Garcia

Deborah e Maria Flor experimentam sugestões de Hipnose  de Relaxamento, Olhos Colados, Perda da Voz.
Veja o vídeo:

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Deborah Secco e a filha, Maria Flor, com Tiago Garcia
Vídeo: Tiago Garcia

Reportagem na fonte:
https://oglobo.globo.com/kogut/noticia/2022/09/deborah-secco-faz-sessao-de-hipnose-com-a-filha-maria-flor-e-vive-momento-inusitado.ghtml

Menino que só comia alimentos beges é curado com Hipnose

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Bethânia Nunes 
Metrópoles

Menino que só comia alimentos beges é curado por Hipnose, diz mãe

Caroline Young/Facebook

Noah Young evitou alimentos coloridos por oito anos. O transtorno alimentar restritivo evitativo (Tare) foi resolvido com sessões de Hpnose

O inglês Noah Young, 9 anos, passou a maior parte de sua vida comendo apenas alimentos de cor bege. A dieta extremamente limitada foi diagnosticada como transtorno alimentar restritivo evitativo (Tare) e tratada com sessões de hipnoterapia, segundo revelou a mãe do menino, Caroline Young, ao jornal The Sun.

The Mirror

As preferências alimentares de Noah começaram a mudar quando ele tinha apenas um ano e meio. Desde então, as refeições do menino ficaram cada vez mais restritas até se limitarem a cereais secos, torradas, panquecas, macarrão sem molho, batatas fritas, nuggets de frango e pizza.

“Ele costumava comer macarrão com molho, mas depois só queria simples. Noah foi mandado da escola para casa por se sentir mal depois que o fizeram comer cenouras”, conta Caroline.

Condição rara

O Tare é uma condição relacionada à sensibilidade em relação às características dos alimentos: textura, cor, sabor, aparência, temperatura e cheiro, e pode causar prejuízos para o desenvolvimento físico, cognitivo e psíquico dos indivíduos. Noah teve um crescimento mais lento do que a maioria das crianças da mesma faixa etária.

“Tentar fazê-lo comer qualquer coisa saudável era um desafio, ele chorava e engasgava. Quando começou a piorar, nós percebemos que ele não crescia e fiquei preocupada que ele não fosse se desenvolver”, lembra a mãe.

Caroline conta que levou o filho a consultas médicas, mas só teve sucesso depois de sessões de Hipnose. 

O profissional fez um hipnotismo focado no futebol, onde a criança se viu com os companheiros de equipe desfrutando de uma refeição saudável antes de um jogo. Depois da sessão, o menino experimentou 22 tipos diferentes de alimentos, principalmente frutas.

The Mirror

“É um progresso muito bom. Ele não passou mal desde então e agora percebe que esses alimentos não vão machucá-lo”, diz Caroline.

Como apagar – parte – das marcas da violência doméstica

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Jornal O Dia

Como apagar - parte - das
marcas da violência doméstica

A violência de gênero tem números alarmantes no Brasil. Quando não há fatalidade, as vítimas carregam as marcas psicológicas e emocionais – e precisam de ajuda profissional, como psicólogos e terapeutas em geral. Recentemente, a Hipnose passou a ser uma opção para essas mulheres, como explica Michael Arruda, que usa a técnica para livrar as pacientes de fobias e traumas

Hipnose segunda Bete / ARTE KIKO

Rio – A partir de 2006, com a chegada da Lei Maria da Penha, ficou mais claro para a sociedade perceber a violência de gênero. Quando não há fatalidade, as vítimas carregam as marcas psicológicas e emocionais. Nessa hora, é imprescindível uma ajuda profissional, como psicólogos, terapeutas em geral e, mais recentemente, as vítimas têm buscado ajuda na Hipnose. Para o Hipnoterapeuta Michael Arruda, a técnica, que nem sempre vem à cabeça quando se procura ajuda para superar os traumas decorrentes da violência doméstica, pode ser uma boa saída para essas mulheres.

“Na mente de muitas dessas mulheres, registros traumáticos se instalam, o que acarreta sentimento de culpa, depressão, vergonha, medo, ansiedade, frustração, síndromes, fobias, pânicos, sintomas físicos (vistos na pele, cabelos etc) e até mesmo negação à própria violência. Além desses aspectos, a pessoa vive conflitos de relacionamentos sociais, pessoais, e isolamento e inseguranças fazem com que cada vez mais a pessoa se vitimize e se sinta infeliz. O tratamento com a Hipnose direciona o estado mental da pessoa para superar esse trauma“, comenta Michael Arruda, presidente da OMNI Brasil, centro de treinamento de Hipnoterapia.

Cerca de 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no país em 2020, de acordo com o Instituto Datafolha. No ano passado, os observatórios e instituições que cuidam do assunto alertaram para o aumento de casos por conta da quarentena. Até porque a maioria dos agressores são pessoas próximas da vítima – muitas vezes, é seu parceiro íntimo. Dados do Instituto de Segurança Pública – ISP, mostram que mais de 98 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica e familiar no Estado do Rio de Janeiro entre janeiro e outubro de 2021. Isso significa cerca de 270 casos por dia, ou 11 vítimas por hora.

Mal planetário

Infelizmente, esse é um mal global. Segundo dados da Organização das Nações Unidas – ONU, um quarto das mulheres no mundo, a partir dos 15 anos, são vítimas da violência de gênero. Enquanto são criadas leis para punir e inibir os agressores, além de estruturas governamentais de apoio e a conscientização da sociedade, é aconselhável que o quanto antes as que já sofreram violência se livrem dos traumas decorrentes da experiência. De acordo com Michael, a Hipnose é uma técnica efetiva, rápida e definitiva, já que são removidas as cargas emocionais negativas e são desvinculados os registros ou experiências traumáticas.

“A Hipnose não apaga a memória do paciente, mas auxilia para que as lembranças não afetem mais a qualidade de vida. Após o tratamento, mesmo que alguém questione a vítima sobre o fato da violência doméstica, imediatamente a lembrança virá à mente, mas sem nenhuma emoção negativa do fato em si”, diz.

Acolhimento e entendimento

As delegacias especializadas de atendimento a mulheres (Deam), que possuem 14 unidades no Estado do Rio, contam com psicólogos, porque é sabido que a agressão física deixa marcas profundas, além dos casos de tortura psicológica. Muitas vezes, o Estado do Rio mantém esses profissionais na Deam por meio da realização de convênios e acordos com os governos municipais e universidades – é válido todo esforço para recuperar essas mulheres interiormente.

Para a terapeuta sistêmica Vera Mendes, que já atuou junto a um grupo de atendimento a mulheres, é importante também que a sociedade entenda como se processam essas relações até que aconteça um episódio de agressão doméstica ou uma tentativa de feminicídio. Para ela, a chave é a comunicação. Estar atento a certos sinais é importante para evitar que a agressão chegue a se concretizar.

“A violência vem quando a palavra não dá conta. O que não é exposto em palavras, acaba culminando em ações. Se mapearmos o que aconteceu antes da violência, descobrimos que o agressor já tinha dados sinais, como bater um portão com força, quebrar um objeto jogando-o na parede, ações desse tipo”, exemplifica.

Vera também chama a atenção para estruturas familiares. “Em algumas famílias, a violência como expressão é naturalizada. Por isso é tão importante que todos se conscientizem dessas situações para entenderem que não é o caminho natural e fiquem alertas e alertem que está dentro desse círculo”, explica a terapeuta.

Como denunciar

Se você perceber que alguma mulher está sofrendo violência doméstica, o número da Central de Atendimento à Mulher é 180, válido em todos os estados e no exterior. O serviço funciona 24h e recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. A ligação é gratuita.

Reportagem na fonte:
https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2022/01/6311633-como-apagar-parte-das-marcas-da-violencia-domestica.html

Hipnose o tratamento mais eficaz que você ainda não prescreveu

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The American Journal of Medicine
Jessie Kittle, MD | David Spiegel, MD

Hipnose o tratamento mais eficaz que você ainda não prescreveu

Apesar da evidência robusta de inúmeras doenças e dados de estudos, a Hipnose é subutilizada por profissionais da área da saúde. O uso da Hipnose cumpre o nosso compromisso de respeitar tratamentos baseados em evidências que aliviam o sofrimento com o mínimo de dano colateral, mas há uma discrepância entre seus benefícios e o número de médicos que oferecem o tratamento. Embora a Hipnose possa aparecer nos currículos médicos em potências acadêmicas como Baylor, Harvard, Columbia e Stanford, o treinamento em Hipnose é raro mesmo nessas instituições. Eis por que uma ressurreição moderna da mais antiga forma ocidental de psicoterapia deve inspirar os profissionais da saúde a se treinarem e oferecerem a Hipnose amplamente.

A Hipnose, e seus mitos e equívocos, evoluíram desde o século 18, quando Franz Mesmer inadvertidamente levou a Hipnose à obscuridade com sua teoria sobre a manipulação de uma força chamada “magnetismo animal”. Essas alegações foram dissipadas pela Academia Real Francesa de Ciências, e levou quase 100 anos para o médico escocês James Braid descrever pela primeira vez uma teoria mental e sugestiva da Hipnose como um estado fisiológico de vigília. A definição de 2014 da Divisão 30 da American Psychological Association descreve a Hipnose como “um estado de consciência envolvendo atenção focada e consciência periférica reduzida, caracterizada por uma capacidade aprimorada de resposta à sugestão”. Evidências empíricas de longa data demonstram que a Hipnose afeta a percepção, os sintomas e os hábitos, que foram recentemente explicadas por modalidades avançadas de diagnóstico, como a ressonância magnética. As mudanças durante a Hipnose incluem atividade reduzida na porção dorsal do córtex cingulado anterior (um componente-chave da rede de saliência) e conectividade entre o córtex pré-frontal e a ínsula (um caminho para o controle mente-corpo). 1Reforçado por dados sobre o metabolismo e a genética dos neurotransmissores, a base neurofisiológica da Hipnose não é mais misteriosa. Embora nossa compreensão do mecanismo de ação da Hipnose seja mais robusta do que a do acetaminofeno, isso não foi suficiente para aumentar seu uso.

Os céticos descrevem a Hipnose de 3 formas: controle mental perigoso, uma farsa ineficaz ou placebo. Muitas vezes, é visto como uma perda de controle e, portanto, perigoso, quando na verdade é um meio poderoso de ensinar os pacientes a controlar a mente e o corpo. A capacidade de entrar em Hipnose, denominada hipnotizabilidade, é uma característica estável possuída pela maioria das pessoas, que pode ser iniciada ou encerrada pelo paciente. Não é indicada em quadros como de acidente vascular cerebral, esquizofrenia, déficits de atenção ou de processamento de linguagem. A Hipnose é mais poderosa que o placebo (embora a expectativa do paciente seja um fator moderador), e o efeito placebo é bloqueado pela administração de naloxona, enquanto a analgesia Hipnótica não.2

Os resultados sobre Hipnose na área da saúde são impressionantes,3 com eficácia comprovada para enxaqueca,4 síndrome do intestino irritável,5 e ansiedade.6 A Hipnose melhora a percepção da dor, o sofrimento emocional e reduz o consumo de medicamentos em até 40%7— em suma, se a Hipnose fosse um medicamento, seria o tratamento padrão. 

Os profissionais da saúde devem prescrever a Hipnose particularmente quando ela supera o quadro padrão atual de atendimento em segurança e eficácia, como no caso de opioides e sedativos.

Os pacientes têm uma forte desejo por assumir o controle de seus sintomas; vídeos de Hipnose online para ansiedade e insônia possuem 15-19 milhões de visualizações, e a Hipnose Médica é bastante aceitável pelos pacientes.8 Mas não se pode esperar que os pacientes diferenciem entre fontes legítimas e manipuladoras de Hipnose online mais do que se comprassem pílulas na rua. Essa modalidade de tratamento está sob a alçada da medicina, e nosso dever é proporcionar um acesso seguro. Para isso, devemos melhorar a oferta.

O treinamento profissional para centros médicos é oferecido por meio de sociedades nacionais, como a Sociedade Americana de Hipnose Clínica (ASCH) e a Sociedade de Hipnose Clínica e Experimental (SCEH). Os treinamentos duram 4 dias e incluem ética e esclarecimento de dúvidas, além de habilidades práticas. O credenciamento do hospital para a aplicação da Hipnose pode ser necessário: Se não houver nenhum, é aconselhável programar um para incluir treinamento profissional e a exigência de orientação. As sociedades de Hipnose podem fornecer orientação para Instituições iniciantes.

O treinamento em Hipnose inclui ferramentas para ajudar nossos pacientes a se ajudarem, o que beneficia todos os nossos pacientes mesmo fora de uma sessão formal. Dizer a um paciente: “Não pense em elefantes roxos” garantirá que eles pensem exatamente nisso. Através das lentes da Hipnose, percebe-se que mesmo a frase comum “Quão ruim é a sua dor” está repleta de associações negativas. Com toda a sua capacidade de confiar em seu médico, os pacientes internalizam “Você tem uma dor forte”. Compare isso com a frase: “Quão confortável você está agora?” O paciente examina seu corpo em busca de conforto em vez de dor e, se for relatado desconforto, pode ser acompanhado com a escala de 0 a 10. Esses ajustes sutis reconhecem o conforto sem o desserviço do sofrimento antecipado. Esta é a arte de cura da medicina.

Além disso, o médico treinado pode praticar a auto-hipnose para controle do estresse, insônia ou ansiedade no trabalho, evitando assim medicamentos que interfiram no seu foco. Nossos pacientes, colegas, estagiários e famílias se beneficiam.

A pesquisa em Hipnose é financiada pelo Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa – National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH), e os pesquisadores estão fazendo incursões nos aspectos genéticos da hipnotizabilidade, e resposta ao tratamento, e estudando a Hipnose para controle da dor para câncer e cirurgia, controle do tabagismo e controle do estresse em assistência médica. A automação da Hipnose usando gravações, aplicativos baseados na web e dispositivos de alto-falante inteligente está sendo testada para expandir o acesso a intervenções de Hipnose. Da ciência básica à eficácia clínica e à educação médica, a pesquisa em Hipnose de todos os tipos tem relevância para a medicina.

Os profissionais da área da saúde são os embaixadores da evidência. Nosso amplo treinamento e escopo maximizam nossa eficácia como tratadores, mas não devemos perder de vista aquilo que experiencia a doença: a mente humana. Quando a técnica da Hipnose estiver devidamente iluminada, seu papel será bem recebido e respeitado por nossos pacientes. Eles se beneficiarão com menos dor, ansiedade, insônia, hábitos como fumar e os efeitos colaterais que acompanham muitos tratamentos farmacológicos. Seremos beneficiados com a satisfação de reagir com agilidade às melhores evidências de tratamentos mais seguros e, quem sabe, também desfrutar de uma melhor noite de sono. Este é um chamado à ação para o uso mais amplo da Hipnose – com destemidos profissionais da saúde liderando o desafio.

References

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https://doi.org/10.1080/00207144.2019.1613863

7. Tefikow S | Barth J | Maichrowitz S | Beelmann A | Strauss B | Rosendahl J
Efficacy of hypnosis in adults undergoing surgery or medical procedures: a meta-analysis of randomized controlled trials.
Clin Psychol Rev. 2013; 33: 623-636
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8. Krouwel M | Jolly K | Greenfield S
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O poder Medicinal da Hipnose

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Martha Henriques
BBC Future

O poder Medicinal da Hipnose

EMMANUEL LAFONT/BBC

A ciência da Hipnose tem uma história longa e, de certo modo, extravagante - mas atualmente está emergindo como potente ferramenta terapêutica

Quando David Spiegel soube que a sua próxima paciente o aguardava, ele não precisou perguntar o número do quarto. Sua respiração ofegante podia ser ouvida a meio caminho no corredor.

Ao entrar no quarto da paciente, ele viu uma menina de cabelos ruivos de 16 anos de idade sentada na cama, tomada pelo medo, em meio a um ataque de asma. Ao lado dela, a mãe chorava. A menina havia sido hospitalizada com asma pela terceira vez em três meses.

Spiegel era estudante de medicina em turnos pediátricos no Hospital Infantil de Boston, nos Estados Unidos. O ano era 1970. Como parte dos seus estudos, ele tinha aulas de Hipnose clínica.

A equipe médica da jovem paciente com asma já havia tentado dilatar suas vias aéreas com injeções de adrenalina. Mas, mesmo depois de duas tentativas, o ataque da menina não diminuía. Spiegel não sabia o que mais poderia fazer.

“Você quer aprender um exercício respiratório?”, perguntou ele.

Ela concordou e Spiegel Hipnotizou sua primeira paciente. Depois que a menina entrou no estado de transe característico da Hipnose, Spiegel estava pronto para fazer uma sugestão — o “ingrediente ativo” do tratamento Hipnótico, que em geral se trata de uma afirmação cuidadosamente elaborada para produz uma reação involuntária.

Mas, enquanto a menina estava sentada na cama, calma e concentrada, Spiegel se perguntava qual sugestão deveria fazer. Ele ainda não havia chegado à aula de asma do seu curso de Hipnose.

“Então eu criei algo”, conta ele, relembrando o caso. “Eu disse: ‘cada respiração que você fizer será um pouco mais profunda e um pouco mais fácil’.”

A sugestão improvisada funcionou. Em cinco minutos, a respiração ofegante da paciente havia parado e ela estava deitada na cama, respirando confortavelmente. Sua mãe havia parado de chorar.

Foi um momento didático para o médico e para a paciente. A menina cresceu e se tornou terapeuta respiratória, enquanto Spiegel dedicou sua carreira à Hipnose clínica. Nos 50 anos que se seguiram, ele fundaria o Centro de Medicina Integrada da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e, pelos seus cálculos, já Hipnotizou mais de 7 mil pacientes.

EMMANUEL LAFONT/BBC

Sugestões Hipnóticas podem gerar experiências profundas e incomuns, como ser incapaz de reconhecer seu próprio reflexo no espelho

À primeira vista, a Hipnose parece um daqueles fenômenos psicológicos que simplesmente não deveriam funcionar. Mas o que a torna tão interessante é que, muitas vezes, ela funciona. Entrar em estado Hipnótico, concentrar-se atentamente e ouvir uma sugestão, para muitas pessoas, é o suficiente para tornar aquela sugestão uma realidade.

Quando uma pessoa Hipnotizável ouve que o seu braço começará a se mover sozinho, ele irá. Quando ela ouve que será impossível separar seus dedos entrelaçados, será como se eles estivessem presos com cola.

Quando ela ouve que não se reconhecerá no espelho, ela verá um estranho vagamente familiar imitando seus movimentos através de uma vidraça. E, se a sugestão for que as dores crônicas irão diminuir ou que a ansiedade gradualmente desaparecerá, a Hipnose passa a ser uma ferramenta terapêutica valiosa.

Cada vez mais evidências indicam que a Hipnose é eficaz para muitas pessoas que sofrem de dores, ansiedade, estresse pós-traumático, parto estressante, síndrome do intestino irritável e outras condições. E, para algumas delas, a Hipnose supera os tratamentos padrão em termos de custo, eficácia e efeitos colaterais.

Mas, apesar de décadas de pesquisas sobre a sua importância terapêutica e do entendimento cada vez maior dos seus mecanismos no cérebro, a adoção da Hipnose clínica vem sendo incrivelmente lenta. Isso se deve, em grande parte, ao conceito errôneo de que a Hipnose é pouco mais que um truque de mágica.

“A Hipnose ainda recebe o rótulo de ser algo estranho”, afirma Spiegel. “As pessoas dizem que ela ou é inútil ou é perigosa — nada entre essas duas definições. E ambas estão erradas.”

Começo 'mesmérico'

Práticas como a Hipnose existem em muitas culturas espalhadas pelo mundo há séculos. Desde o transe nas práticas de cura tradicionais do sul da África até o xamanismo na Sibéria, na Coreia e no Japão e a medicina nativa norte-americana, muitas práticas exploram a capacidade do corpo de entrar em estado Hipnótico.

A Hipnose chegou um pouco mais tarde à Europa e à América do Norte e as origens da versão ocidental da Hipnose datam do final do século 18.

Em 1775, o médico alemão Franz Mesmer popularizou a teoria do magnetismo animal. Mesmer acreditava que um fluido magnético invisível viajava através do corpo humano, influenciando nossa saúde e comportamento.

Mesmer tomou para si a tarefa de manipular esse fluido, refinando uma técnica que ficou conhecida como “mesmerismo”.

Durante sua prática médica no então chamado império Habsburgo e posteriormente em Paris, na França, ele descobriu que, sustentando o olhar do paciente e concentrando-se atentamente nele, às vezes fazendo movimentos como passar sua mão do ombro até o braço, ele conseguia resultados terapêuticos.

Mesmer ficou rapidamente famoso – e cada vez mais extravagante. Seus salões em Paris eram “sombrios e sugestivos, com cortinas, grossos tapetes e decorações astrológicas nas paredes”, descreve Jessica Riskin, professora de história da Universidade de Stanford. “O próprio Mesmer vestia-se com uma toga de tafetá lilás.”

Apesar da popularidade de Mesmer, o magnetismo animal logo saiu de moda, mas o fenômeno explorado por Mesmer ganhou força no século 19 com um novo nome: Hipnose.

Diversos médicos ilustres desenvolveram sucessivas teorias sobre a sua natureza, distanciando a Hipnose das suas origens “mesméricas”. O mais famoso deles foi o fundador da psicoterapia ocidental, Sigmund Freud, que fez algumas das suas análises mais conhecidas com base nos prontuários de pacientes como “Anna O” (a feminista judia austríaca Bertha Pappenheim), que um de seus colaboradores, Josef Breuer, tratou com Hipnose entre 1880 e 1882.

Posteriormente, Freud abandonou a Hipnose em favor da sua técnica de “livre associação”, não sem antes a terapia Hipnótica moldar as bases da psicoterapia ocidental.

O mau uso da Hipnose

Enquanto os médicos exploravam seu potencial terapêutico, a Hipnose também desenvolvia seus usos pelo mundo do showbusiness.

Os mal-afamados Hipnotizadores populares faziam tours pela Europa, sugerindo aos participantes que imitassem galinhas, ficassem rígidos como tábuas ou presenciassem uma aparição da Virgem Maria. Os debates públicos sobre a Hipnose intensificaram-se nos anos 1880, até que alguns países começaram a promulgar leis para regulamentar o seu uso.

A preocupação com os abrangentes efeitos da Hipnose atingia seu ápice à medida que se aproximava a virada do século.

Em setembro de 1894, Ella Salamon, de 22 anos de idade, morreu depois que ser Hipnotizada por um ocultista em um castelo em uma área remota na Hungria. A história reverberou pela comunidade médica e pela imprensa na Europa e na América do Norte.

Três meses depois, na Alemanha, a baronesa Hedwig von Zedlitz und Neukirch, em busca de tratamento para dores do estômago e de cabeça, encontrou um homem que se apresentava como “curador magnético” chamado Czeslaw Czyński. Ele supostamente usou a Hipnose para seduzir a baronesa por diversas sessões, culminando em um casamento que causou consternação entre a aristocracia alemã.

A baronesa passou vários meses afirmando que estava realmente apaixonada por Czyński, que tinha olhos atraentes, cabelos exuberantes e dentes brancos.

Naquele mesmo ano, o escritor franco-britânico George du Maurier criou o Hipnotizador fictício Svengali, no romance best-seller Trilby. O público devorou o livro em meio às notícias do caso Czyński, afirmando que havia paralelos fantásticos entre as duas histórias.

Escândalos como esses intensificaram os esforços de médicos para se distanciar dos ocultistas e Hipnotizadores populares e legitimar o seu próprio trabalho. Muitos médicos defendiam que a Hipnose não deveria ser realizada por praticantes leigos.

Mais de um século se passou e essa tensão ainda não foi resolvida. Muitos pesquisadores acadêmicos e praticantes clínicos com quem conversei ainda defendem que a prática do Hipnotismo pelos leigos é perigosa e que sua má reputação inibiu o desenvolvimento mais amplo da Hipnose na medicina.

Mas, com cada vez mais exemplos da sua eficácia clínica na literatura e novas descobertas sobre o seu mecanismo no cérebro, pesquisadores e médicos estão concentrando seu trabalho na reabilitação da Hipnose.

O legado dos excêntricos experimentos de Mesmer é um conjunto diverso de pesquisas, que variam desde experimentos independentes em meados do século 20 misturando Hipnotismo, cobras e ácido concentrado, até estudos publicados em periódicos médicos importantes sobre a Hipnose como potente meio de alívio de dores sem o uso de medicação.

Mas, antes de examiná-los, decidi que seria uma boa ideia experimentar a Hipnose pessoalmente.

EMMANUEL LAFONT/BBC

A Hipnose popular pode envolver sugestões como imitar animais, e os estudiosos preocupam-se com suas possíveis consequências prejudiciais

Em busca da experiência

Em uma tarde de segunda-feira, enquanto me aproximo do consultório do neurocientista cognitivo Devin Terhune, da Universidade Goldsmiths, em Londres, começo a ficar nervosa por dois motivos.

Primeiro, porque nunca fui Hipnotizada antes. Embora eu já tenha falado com diversos pesquisadores e médicos, saber um pouco sobre a teoria não fez com que eu me sentisse preparada para uma sessão real. Afinal, algumas pessoas relatam experiências profundas durante a Hipnose, desde sair do próprio corpo até alucinações.

Segundo, porque existe a possibilidade de ocorrer exatamente o contrário — eu ficar sentada com meus olhos fechados por 20 minutos e não conseguir reagir a nenhuma sugestão Hipnótica.

Apenas cerca de 10% a 15% da população são classificados como “altamente Hipnotizáveis”, ou seja, reagem à maior parte das sugestões. Conhecidos na comunidade Hipnótica como “altos”, esse grupo passa por experiências fortes e às vezes profundas durante a Hipnose.

Mas a maior parte da população tem uma reação mais silenciosa. Esses indivíduos medianamente Hipnotizáveis poderão reagir a algumas sugestões Hipnóticas, mas fracassar nos testes mais desafiadores.

E os cerca de 10 a 15% restantes são conhecidos como “baixos”. Os baixos podem reagir a uma ou duas sugestões fáceis ou até não reagir a nenhuma delas.

Seja você alto ou baixo, as pesquisas indicam que o seu nível de capacidade de Hipnose não se altera ao longo da vida. Em 1989, um estudo da Universidade de Stanford examinou 50 estudantes calouros de psicologia para determinar sua capacidade de Hipnose e os examinou novamente 25 anos depois.

Os antigos colegas apresentaram avaliações surpreendentemente estáveis após todos esses anos – ainda mais estáveis que outras características individuais, como a inteligência.

O que está por trás dessa característica é uma área de pesquisa recente. Existem indicações de que os níveis de dopamina – um neurotransmissor (mensageiro químico) — no cérebro estão relacionados com a capacidade de Hipnose.

Estudos preliminares indicaram um gene chamado COMT, envolvido no metabolismo da dopamina, mas as conclusões foram contraditórias e ainda não surgiu um quadro genético mais claro.

Outro neurotransmissor, o ácido gama-aminobutírico (GABA), também foi relacionado à capacidade de Hipnose. Em um estudo na Universidade de Stanford, Spiegel, Danielle DeSouza e seus colegas concluíram que as pessoas altamente Hipnotizáveis apresentavam níveis mais altos do neurotransmissor GABA em uma parte do cérebro considerada intimamente envolvida com a Hipnose.

Essa região do cérebro (o córtex cingulado anterior) está relacionada, entre outras coisas, com o controle cognitivo e a vontade. GABA apresenta efeito inibidor sobre as células cerebrais, o que levou DeSouza e Spiegel a sugerir que maiores reservas de GABA nessa região do cérebro poderiam ajudar os “altos” a entrar em estado Hipnótico com mais facilidade.

Existem também alguns indicadores de características de personalidade relacionados com a capacidade de Hipnose, mas não ao nível das cinco características principais. Altos e baixos podem ser extrovertidos ou introvertidos; agradáveis ou desagradáveis; neuróticos ou emocionalmente estáveis; abertos ou fechados a novas experiências; e meticulosos ou altamente desorganizados.

Algumas características mais sutis são encontradas com mais frequência nos “altos”, como se empenhar de forma mais criativa, reagir a indicações do ambiente ou se predispor à autotranscendência, segundo Terhune.

Curiosamente, os pesquisadores da Hipnose com quem conversei descreveram algumas características frequentemente observadas em pessoas com alta capacidade de Hipnose. São aquelas que ficam tão absortas em um livro que perdem de vista o que está acontecendo ao seu redor, ou que gritam alto quando se assustam ao ver um filme.

No caminho para o consultório de Terhune, recordo aquela vez em que cheguei atrasada para um novo emprego depois de atravessar Londres de metrô na direção errada enquanto lia o livro O Poder, da escritora britânica Naomi Alderman. E lembro que evito tudo o que possa ser remotamente assustador no cinema, desde que soltei um grito horripilante durante aquele filme terrivelmente assustador chamado Harry Potter e a Câmara Secreta.

Fiquei imaginando se conseguiria ser Hipnotizada, afinal.

Reação involuntária

Empoleirada sobre o sofá cinza no consultório de Terhune encontra-se uma grande almofada, posicionada como se estivesse pronta para apoiar a cabeça de alguém que subitamente se sentisse com sono.

Ela e uma caixa preta proeminente, algo como uma grande caixa de sapatos, são os únicos objetos que diferenciam a sala de inúmeros escritórios de acadêmicos do campus da Universidade Goldsmiths no sul de Londres. Ali, Terhune pesquisa muitos aspectos da consciência, que vão da Hipnose até a metacognição, e estes são os seus acessórios experimentais.

Depois de dar meu consentimento para que sejam conduzidos testes básicos para determinar minha capacidade de Hipnose, Terhune rabisca um pequeno ponto em um quadro branco no lado oposto ao sofá, que ele chama de “alvo”, e me convida a me concentrar nele. Eu obedeço e ele começar a ler um roteiro, em voz lenta e constante:

“Vou ajudar você a relaxar e, enquanto isso, vou fornecer algumas instruções para ajudar você a entrar gradualmente em um estado de Hipnose. Continue a concentrar-se cuidadosamente no alvo. Por favor, olhe para o alvo. E, enquanto estiver olhando, continue ouvindo atentamente minhas palavras. Você pode ficar Hipnotizada se estiver disposta a fazer o que estou pedindo e, se você se concentrar no alvo e no que eu disser…”

Em dois minutos, meus olhos estão fechados e eu me sinto relaxada. Incomumente relaxada.

Observo primeiro no meu rosto que meu sorriso social habitual desaparece. Depois sinto a tensão nos meus ombros diminuir e eles aos poucos vão caindo, se distanciando de minhas orelhas. Eu me inclino para trás, sobre a almofada atrás da minha cabeça.

Estou relaxada, mas ainda consciente do que está se passando e minha mente não se apagou completamente. Pensamentos ocasionais vêm e vão na minha cabeça: “Então, estou realmente Hipnotizada agora? Eu conseguiria sair desse estado se quisesse? Consigo ouvir meu coração batendo, estou ansiosa demais para que isso funcione? Isso irá parecer muito estranho? Serei capaz de controlar?”).

Eu tento não perseguir os pensamentos em círculos. Terhune me relembra de concentrar-me apenas na sua voz e as interrupções mentais diminuem.

“Para começar, eu gostaria que você mantivesse seu braço na altura do seu ombro”, diz Terhune.

Em vez de se mover sozinho, meu braço permanece relaxado ao meu lado. Imediatamente sinto uma ponta de decepção (“puxa, não sou totalmente Hipnotizável?”).

Terhune faz uma pausa e continua em seguida, com voz calma e paciente: “esta ainda não é uma sugestão, não se preocupe, você pode apenas manter seu braço reto à sua frente, como faria normalmente” (“Ah, ok, então posso fazer de propósito.”) Ergo voluntariamente o braço. “Isso mesmo”, diz ele.

Agora vem a sugestão real.

“Eu quero que você preste muita atenção à sua mão — qual a sensação, como ela está. Observe se a sua mão está um pouco dormente ou formigando. O leve esforço necessário para evitar dobrar o seu pulso. Preste muita atenção à sua mão. Eu quero que você imagine que está segurando algo muito pesado na sua mão, como um livro pesado. Algo muito, muito pesado. Segure o livro na sua mão. Agora, sua mão e seu braço se sentem muito pesados com a pressão do peso do livro.”

Do nada, lá está o livro na minha mão. Com os olhos ainda fechados, fico maravilhada com o peso. Parece que existe realmente um volume substancial na minha mão esticada — a única forma de saber que não é um livro real é que não consigo sentir a capa do livro na palma da minha mão.

“À medida que o peso aumenta cada vez mais, o seu braço move-se cada vez mais para baixo, ficando mais pesado, mais pesado, mais pesado, sua mão cai, cai, até não poder mais…”

E assim foi. Terhune quase não teve tempo de terminar a sugestão antes que a minha mão atingisse o sofá.

Ouço o rabiscar do lápis sobre o papel vindo da direção da sua mesa. Ainda me sinto calma e relaxada, mas, em algum lugar da minha cabeça, uma voz está dizendo baixinho: “uau!”.

Depois veio outro teste. Terhune me diz para manter meu braço esticado para frente. “Desta vez, o que quero que você faça é pensar no seu braço ficando incrivelmente firme e rígido”, ele diz.

É como se o meu cotovelo fosse feito de madeira seca e lascada. A sensação não é tão forte quanto a do livro pesado, mas certamente existe ali uma resistência quando tento dobrar o cotovelo.

Depois de um momento, consigo transpor a sensação, que diminui. Mas é preciso esforço.

Depois, mais dois testes. Terhune sugere que eu adormeça e tenha um sonho sobre Hipnose. Eu me sinto com sono e estou consciente das imagens flutuantes. Por um momento, um cão terrier escocês branco aparece brincando em um gramado — mas não é de fato um sonho, é mais parecido com aqueles momentos pouco antes de dormir, quando a mente começa a vaguear. E não tenho ideia de que relação possa haver entre os cães e a Hipnose.

Terhune me diz em seguida que está tocando a música Jingle Bells, primeiro com volume muito baixo e que irá gradualmente aumentar o volume. Eu não ouço nada, exceto o ruído das árvores ao vento pela janela.

Terminamos com mais dois testes. Primeiro, eu estendo minhas mãos como se segurasse uma bola de futebol. Terhune sugere que minhas mãos estão sendo afastadas por uma força irresistível. A sensação é um pouco similar ao experimento da bola invisível, mas mais forte.

Desta vez, fico curiosa para ver o que acontece se eu forçar um pouco. Tento reunir as palmas das mãos, mas é difícil resistir à sugestão. Em poucos segundos, meus braços estão estendidos ao máximo possível.

No último teste, Terhune sugere que meu braço esquerdo fique extremamente pesado e preciso tentar erguer minha mão esquerda do meu colo. A dificuldade é quase tão grande quanto ao tentar dobrar meu cotovelo — requer bastante esforço, mas consigo erguer minha mão alguns centímetros.

Ao final dos meus testes, Terhune conta lentamente de 20 até zero para me fazer sair da Hipnose. Ao chegar em cinco, abro meus olhos. Sinto-me um pouco atordoada, como se tivesse dormido demais e acordado muito rapidamente.

EMMANUEL LAFONT/BBC

A capacidade de Hipnose é uma característica individual, como a inteligência, que varia de uma pessoa para outra

O resultado

Terhune conta que, segundo os testes, ele estima que estou mais ou menos na média da faixa normal de capacidade de Hipnose.

Os testes aos quais eu reagi intensamente (o grande peso na minha mão estendida e a força afastando minhas mãos) são aqueles que funcionam para a maioria das pessoas. No teste do grande peso, cerca de 90% da população sente alguma coisa, segundo Terhune — até ele, que é “baixo”.

Reagir aos testes contra os quais eu lutei (o braço rígido e o braço pesado) é um pouco mais raro. E os outros dois testes são muito difíceis — poucas pessoas respondem à sugestão de ter um sonho nítido sob comando e ainda menos pessoas ouvirão Jingle Bells tocando em uma sala em silêncio. Terhune incluiu esses testes considerando a possibilidade de que eu pudesse ser “alta”.

Havia dois outros testes que ele não tentou fazer. Um deles é a agnosia, que é a sugestão de esquecer o nome de um objeto simples, como uma tesoura, e para que ele serve.

Terhune me mostra o que teria feito nesse teste. Ele depositaria uma tesoura, junto com um pedaço de fita, uma caneta e uma régua sobre a caixa preta que eu havia observado antes. Ele teria me pedido para apontar para a tesoura, o que uma pessoa muito altamente Hipnotizável não seria capaz de fazer. Se você então entregasse a essa pessoa um pedaço de papel e pedisse que ela usasse a tesoura, ela ficaria perplexa.

Outro teste é a amnésia Hipnótica, quando se diz a alguém que esqueça tudo o que aconteceu durante a Hipnose. Mas a reação a esses testes é rara — tipicamente, cerca de 12% das pessoas reagem, segundo Terhune.

Se você nunca foi Hipnotizado antes, sua experiência estatisticamente deverá ser mais ou menos similar à minha.

No trem para casa após a Hipnose, ainda com alguma sensação de calma residual, fico remoendo o que havia acabado de acontecer. Por mais real que parecesse para mim, existe algum ceticismo saudável sobre a credibilidade dos relatos subjetivos como evidências científicas. Minha Hipnose não se pareceu com nada que eu já houvesse experimentado — tanto que fiquei sedenta por um relato mais objetivo da minha experiência.

O cérebro Hipnotizado

O famoso teste Stroop fornece algumas evidências úteis. Ele mede a dificuldade encontrada pelas pessoas para identificar a cor usada para escrever uma palavra, quando essa palavra for o nome de outra cor.

Imagine, por exemplo, a palavra “vermelho” escrita com tinta azul. As pessoas levam mais tempo para dizer que a tinta é azul que quando a tinta é da cor vermelha correspondente.

Quando participantes Hipnotizados foram instruídos a não conseguir mais ler, as letras assumiram formas sem significado. Por isso, eles identificaram com mais rapidez a cor das palavras não coincidentes, já que não se distraíam mais com as palavras escritas na página.

EMMANUEL LAFONT/BBC

No teste Stroop, os nomes das cores são escritos em tinta de cor diferente - e pode ser um teste revelador sob Hipnose

Também parece haver diferenças na atividade cerebral quando se solicita a alguém que “finja”, em comparação com a experiência de reação involuntária.

Em um pequeno experimento, pesquisadores estudaram 12 participantes saudáveis em um scanner de tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês), para medir a atividade metabólica em algumas partes do cérebro.

Em um conjunto de testes, eles receberam a instrução de fingir que são incapazes de movimentar suas pernas. Em outro conjunto de testes, as mesmas pessoas foram Hipnotizadas e receberam a sugestão de que sua perna estaria paralisada. Os estudos das imagens cerebrais mostraram que cada uma das duas condições ativou diferentes regiões do cérebro.

Um estudo posterior expandiu a mesma questão do Hipnotismo x fingimento, desta vez usando um scanner de imagens por ressonância magnética (RM), que fornece mais detalhes ao observar tecidos moles.

Desta vez, os pesquisadores observaram que o córtex motor — a parte do cérebro que controla os movimentos do corpo — exibiu atividade nos pacientes sob Hipnose. Isso indica que as pessoas Hipnotizadas realmente estavam se preparando para tentar mover o seu membro, apesar de não conseguirem mais movimento que o grupo que estava fingindo ter paralisia.

Existe então alguma característica do cérebro Hipnotizado que possa explicar a sensação e as experiências peculiares da reação Hipnótica? Esta é uma área de pesquisa recente, mas há duas possibilidades.

Parte da história pode ser encontrada na rede de saliência do cérebro, segundo Spiegel. Essa rede nos ajuda a identificar quais aspectos do nosso ambiente merecem ser observados, selecionando informações relevantes entre os conjuntos de dados sensoriais que inundam o nosso cérebro a todo segundo do dia.

Em um experimento, Spiegel e seus colegas Hipnotizaram pessoas “altas” e “baixas”, ao mesmo tempo em que analisavam seus cérebros. Os altos apresentaram menor atividade na rede de saliência durante a Hipnose.

“Quando isso acontece, você está menos preocupada com o que mais pode estar acontecendo”, explica Spiegel. “Isso permite que você se desconecte do resto do mundo.”

Isso poderá explicar, em parte, a sensação de intensa concentração durante a Hipnose. Mas, e quanto à estranha sensação de que o seu corpo está fazendo coisas sozinho? Bem, as melhores evidências apontam para a rede de modo padrão cerebral, segundo Terhune — um conjunto de regiões cerebrais que são mais ativas quando estamos em repouso.

“Acredita-se que ela esteja integralmente envolvida na atividade mental autorrelacionada — sonhar durante o dia, devaneios da mente e assim por diante”, afirma ele.

Acredita-se ainda que uma parte específica dessa rede — o córtex pré-frontal medial anterior – desempenhe papel fundamental na Hipnose.

“Essa região parece estar envolvida no processamento autorrelacionado, na metacognição [pensar em pensar] e na capacidade de controlar seus próprios pensamentos”, explica Terhune. “Trata-se de processos que podem ser atenuados em reação à indução Hipnótica.”

Com a atividade temporariamente inibida na rede de modo padrão, pode ficar mais difícil pensar em você como um agente consciente. Esta pode ser a causa da notável sensação de que você não tem total autonomia sobre o seu próprio corpo.

A importância dessa parte da rede de modo padrão na Hipnose foi descoberta em vários estudos, mas Terhune acrescenta uma ressalva: “às vezes, não sabemos qual é o ingrediente causador.”

O córtex pré-frontal medial, por exemplo, também está envolvido na elaboração de deduções sobre o estado mental das outras pessoas. Pode ocorrer que, quando você está sendo Hipnotizado, também esteja por acaso pensando no Hipnotizador e no que ele está pensando.

“Mas esta é a melhor linha de evidência”, conclui Terhune. “É a redução do processamento autorrelacionado e da metacognição.”

Do laboratório para a clínica

Enquanto os pesquisadores acadêmicos analisam em detalhes os motivos pelos quais a Hipnose funciona, os médicos estão fazendo uso dos seus efeitos há séculos.

O uso médico mais bem explorado da Hipnose talvez seja a tentadora promessa de aliviar as dores sem remédios. Diversas meta-análises (pesquisas que analisam as descobertas de um conjunto abrangente de estudos, determinando a qualidade e o projeto de cada um deles) encontraram resultados consistentes a este respeito.

Uma recente meta-análise de 45 testes de Hipnose para alívio de dores concluiu que os participantes de estudos que são Hipnotizados experimentam mais alívio das dores que cerca de 73% dos participantes controle. E duas meta-análises do início dos anos 2000 concluíram que a Hipnose era superior à assistência padrão e incentivaram seu uso mais amplo em ambientes clínicos.

Como era de se esperar, esses efeitos não são iguais para todos. Quanto mais Hipnotizável for uma pessoa, maior será a redução das suas dores, segundo uma análise de 85 estudos experimentais controlados pelos autores, com a participação de Terhune.

Algumas das descobertas mais fascinantes foram realizadas no campo das dores crônicas, definidas como dores que duram por mais de três meses.

No Reino Unido, 13% a 50% das pessoas sofrem de dores crônicas, enquanto, nos Estados Unidos, essa parcela é de cerca de um terço da população. Em todo o mundo, cerca de dois bilhões de pessoas sofrem dores de cabeça recorrentes causadas por tensão, que representam o tipo mais comum de dor crônica.

Por sua natureza, o tratamento das dores crônicas com remédios é particularmente difícil. Os analgésicos opioides causam dependência, trazendo uma série de efeitos colaterais e contribuindo para a epidemia de opioides.

Uma meta-análise de nove estudos aleatorizados demonstrou que a Hipnose reduz a intensidade das dores e sua interferência na vida diária — e os pacientes que receberam oito ou mais sessões experimentaram alívio significativo das dores.

Em 2000, Spiegel conduziu um estudo aleatorizado de analgesia Hipnótica em 241 pacientes que passaram por procedimentos cirúrgicos invasivos realizados sem anestesia geral. Os pacientes foram divididos em três grupos: um deles recebeu assistência padrão, outro tinha uma enfermeira simpática fornecendo apoio adicional e outro foi Hipnotizado.

Todos os três grupos tinham acesso a um botão com o qual poderiam tomar um coquetel de fentanil (um poderoso analgésico opioide) e midazolam (um remédio que causa sonolência e perda de memória).

A cada 15 minutos, antes, durante e depois dos procedimentos, solicitou-se aos pacientes que avaliassem suas dores e seu nível de ansiedade de zero (calmos e sem dores) a 10 (medo profundo, ansiedade e dor).

O grupo com assistência padrão usou mais que o dobro da quantidade de fentanil e midazolam que o grupo com a enfermeira simpática ou o grupo Hipnotizado. E o período de tempo necessário para realizar a operação também foi mais longo no grupo com assistência padrão (78 minutos, em média) e mais curto entre o grupo Hipnotizado (61 minutos).

“O nível de ansiedade foi zero no grupo sob Hipnose”, afirma Spiegel. “Simplesmente houve menos problemas para realizar o procedimento.”

Mas, para sua frustração, não houve aumento considerável do uso de Hipnose clínica depois do estudo. Spiegel agora desenvolveu um aplicativo de Auto-Hipnose chamado Reveri. Ele espera que o aplicativo torne a Hipnoterapia com base em evidências mais facilmente disponível a quem desejar ter acesso a ela.

Considerando a eficácia do tratamento Hipnótico para uma variedade cada vez maior de condições, por que a disseminação dessa prática tem sido tão lenta?

A questão da coerção

A maior parte das reservas não se deve à falta de evidências, mas a um misto de preocupações e conceitos errôneos sobre a natureza involuntária da reação hipnótica.

“Este é um dos mitos mais difundidos”, segundo Terhune. “Que, se você vier a uma sessão de Hipnose comigo, eu posso controlar você, fazer com que você faça coisas inadequadas. Mas as evidências a esse respeito são muito pequenas.”

Amanda Barnier, professora de ciências cognitivas da Universidade Macquarie, na Austrália, explorou essa questão em um estudo com o uso inteligente de cartões-postais.

Ela dividiu os participantes do estudo em dois grupos: um grupo de pessoas altamente Hipnotizáveis recebeu uma grande pilha de cartões-postais e, depois de indução Hipnótica, foi dada a elas a sugestão de enviar um cartão-postal para Barnier todos os dias, até que ela telefonasse.

No dia seguinte, os cartões-postais começaram a chegar — e continuaram chegando.

Quando, em dado momento, Barnier ligou novamente para os participantes do estudo, as reflexões foram fascinantes. “As pessoas que haviam sido Hipnotizadas disseram ‘oh, meu Deus, estava fora do meu controle. A chuva caía lá fora e, mesmo assim, eu saía e mandava aquele cartão-postal para você, eu não conseguia me controlar. Era uma compulsão'”, relembra ela.

Mas o experimento não terminou ali. Barnier também usou um grupo controle de pessoas que não haviam sido Hipnotizadas, a quem ela simplesmente solicitou que enviassem um cartão-postal todos os dias. “Eu disse: ‘sou estudante de PhD e estou tentando escrever a minha tese. Aqui estão alguns cartões-postais, vocês me enviariam um todos os dias?”

De forma talvez surpreendente, esse grupo também se sentiu obrigado. Quando Barnier telefonou para eles, para falar sobre a sua experiência, eles foram mais pragmáticos. “Eles disseram ‘bem, você parecia desesperada’.”

Com isso, Barnier concluiu que os participantes Hipnotizados não estavam sendo obrigados a fazer nada que não teriam feito de outra forma, mesmo sentindo o contrário.

Experimentos anteriores, conduzidos em tempos de regulamentações éticas mais permissivas, concluíram que pedidos mais extremos geraram reações similares.

Em 1939, um experimento alarmante forneceu a participantes profundamente Hipnotizados a sugestão de agarrar uma enorme cascavel. Foi dito aos participantes que a cobra era apenas um rolo de corda.

Um participante dispôs-se a agarrá-la, mas foi impedido por uma vidraça. Outro saiu da Hipnose e recusou-se a fazê-lo. Dois outros participantes Hipnotizados não receberam a informação de que a cobra seria um rolo de corda e ambos tentaram agarrá-la mesmo assim.

E dois dos participantes receberam então a sugestão de que ficaram com raiva de um assistente do experimento por colocá-los naquela situação perigosa. Foi dito a eles que não conseguiriam resistir à tentação de atirar um frasco de ácido concentrado no rosto do assistente — e os dois o fizeram, mas, em um gesto rápido, o frasco de ácido real havia sido substituído por um líquido inofensivo com a mesma cor.

Também se solicitou a um grupo controle de pessoas não Hipnotizadas que participasse, mas a maioria não foi muito longe, pois eles ficaram apavorados com a cobra e não chegaram perto dela. Essas conclusões foram replicadas em outro estudo de 1952, mas pesquisas posteriores criticaram o fato de que os participantes controles não receberam a mesma pressão do grupo Hipnotizado, tornando a comparação injusta.

Um experimento realizado em 1973 buscou abordar a questão de forma mais robusta, colocando os participantes Hipnotizados e não Hipnotizados em pé de igualdade. Um grupo de estudantes universitários foi Hipnotizado e recebeu a sugestão de sair pelo campus para vender algo que, segundo lhes foi informado, seria a droga heroína. O outro grupo simplesmente recebeu a solicitação — e os dois grupos saíram e obedeceram.

Mas os responsáveis pelo experimento tiveram problemas, pois o pai de uma das participantes era um professor do campus. Ele não ficou nada satisfeito ao descobrir que sua filha estava tentando vender heroína para os colegas.

“A conclusão é que os estudantes de graduação estão dispostos a cometer atos malucos”, afirma Terhune. “Não tem nada a ver com Hipnose.”

Como ocorreu com a descoberta de Barnier, muitos dos atos surpreendentes das pessoas Hipnotizadas não se devem à Hipnose, mas simplesmente ao fato de que as pessoas farão todo tipo de coisas bizarras que você pedir.

O que esses experimentos não respondem definitivamente é se alguém pode ser genuinamente obrigado a fazer algo contra a vontade sob Hipnose. Mas, fora do mundo acadêmico, existem muitos casos em que a Hipnose foi usada com más intenções.

Entrevista revista AMPLA do Sistema UNIMED-PR

Entrevista revista AMPLA - Sistema UNIMED-PR

Uso e abuso

É noite e há trânsito em uma rua movimentada no norte de Londres, em frente a uma loja de esquina.

Dentro da loja, o vendedor está movendo alguns produtos de lugar, quando entra um jovem com aparência confiante, vestindo uma camiseta cinza, jaqueta escura e jeans. Ele se aproxima do vendedor e o toca no braço.

Segundo a imagem embaçada do circuito fechado de TV, ocorrem em seguida algumas coisas estranhas. O vendedor fica paralisado no local, aparentemente em transe. O homem toca no peito e no ombro do vendedor e, em seguida, revista seus bolsos. O vendedor fica imóvel, aparentemente sem notar. Somente quando o ladrão sai da loja, o vendedor parece perceber que foi assaltado.

“Como cientista, esses casos são de difícil interpretação porque não conhecemos todas as circunstâncias”, afirma Terhune. “Você poderia usar a distração para cometer um crime? Certamente que sim. Você poderia colocar alguém em transe e assaltar ou agredir essa pessoa? É muito difícil dizer e muito complicado.”

Esse assalto no norte de Londres é apenas um dentre uma longa e, em certos casos, angustiante lista de crimes, muitas vezes envolvendo abusos sexuais de pacientes mulheres por Hipnotizadores desonestos, que frequentemente exploram o desequilíbrio de poder entre o abusador e a vítima.

“É claro que são casos horríveis e repugnantes”, afirma Terhune. “Esses casos são difíceis porque já estão ocorrendo em uma dinâmica de poder incomum com um especialista ou profissional em quem alguém provavelmente confia. Por mais terríveis que sejam esses eventos, eles ocorrem em muitas situações com relações de poder diferenciais, [como] treinadores, professores ou profissionais médicos.”

Além da dinâmica de poder, existem outros fatores difíceis de identificar, segundo explica Barnier, como as percepções ou os estereótipos da Hipnose que as pessoas podem ter (como “na Hipnose, eu perco o controle”). Devido a esse conjunto de fatores, “não fica claro se o agente de vulnerabilidade é a própria Hipnose ou o contexto mais amplo”, segundo ela.

Tudo isso traz a seguinte questão: como alguém que procura a Hipnose pode tomar precauções para ter certeza de que o seu tratamento será o mais seguro possível? Barnier afirma que a regra de ouro é uma só: “se alguém não conseguir tratar você sem Hipnose, essa pessoa não deverá tratar você com Hipnose”.

Todos os médicos e pesquisadores que consultei para esta reportagem, incluindo Hilary Walker, executiva-chefe da Sociedade Britânica de Hipnose Clínica e Acadêmica, e Joe Tramontana, presidente eleito da Sociedade Norte-Americana de Hipnose Clínica, concordam com essa abordagem.

O Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido também recomenda sempre verificar as qualificações do terapeuta. A entidade afirma no seu website que “a Hipnoterapia somente deverá ser realizada por profissionais de saúde qualificados, submetidos a uma organização profissional. Eles deverão ser, por exemplo, médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais ou fisioterapeutas.”

Uma razão da importância desse ponto é que, em muitos países (incluindo o Reino Unido e a Austrália), não há uma organização oficial que regulamente o Hipnotismo leigo.

“Na Austrália, você encontra pessoas que fazem cursos de fim de semana ou de seis meses em uma escola de Hipnose”, afirma Barnier. E se algo correr errado durante o tratamento? “Não existe uma agência profissional para a qual você possa ir e reclamar.”

Em alguns países, os praticantes da Hipnoterapia podem preferir associar-se a uma organização que registre os Hipnoterapeutas leigos. No Reino Unido, por exemplo, existe o Conselho Geral de Padrões de Hipnoterapia (GHSC, na sigla em inglês). Mas o conselho informa que nenhuma dessas organizações pode reivindicar o título de órgão regulador oficial, pois “Hipnoterapeuta” não é um título protegido da mesma forma que “médico” e “fisioterapeuta”.

O GHSC pede, por exemplo, que os Hipnoterapeutas que solicitam inscrição no seu registro obedeçam um código de ética. O conselho também mantém um procedimento de reclamação aberto aos pacientes dos seus membros registrados.

“Mas, como a Hipnoterapia não está sujeita à regulamentação estatutária, nem nós, nem nenhuma outra organização [que registre Hipnotizadores leigos], podemos evitar que um praticante que tenha sido excluído do registro continue a praticar de forma independente”, segundo um porta-voz do conselho.

A mensagem final dos médicos e das organizações profissionais com quem conversei permanece sendo a de assegurar-se de que qualquer pessoa a quem você busque tratamento tenha as qualificações de saúde apropriadas. E, ao sofrer de um problema de saúde, você deve consultar seu médico ou posto de saúde.

EMMANUEL LAFONT/BBC

A Hipnose pode parecer estranha e esotérica, mas, de muitas formas, temos experiências similares à Hipnose todos os dias

'Maluquice' ou parte do dia a dia?

Apesar da sua longa tradição de “maluquice”, como diz Barnier, a Hipnose não está tão longe assim de muitas experiências da nossa vida diária.

Para muitas pessoas, é comum perder-se em um bom livro, ou pode ser irresistível ficar absorto em um filme (quem sabe, até um filme de Harry Potter). Ou talvez você possa ficar desatento com as marcas da rodovia enquanto dirige.

Barnier afirma que, se isso já aconteceu, você experimentou algo que não é muito diferente da Hipnose. Existem até paralelos entre ficar absorvido pelo seu smartphone e a Hipnose. Ambos distorcem a percepção do tempo, reduzem a consciência do seu ambiente externo e causam redução do sentido de controle (aquela sensação de que você simplesmente não consegue parar de rolar a tela).

Mas, se você não experimenta com frequência esse tipo de absorção profunda, isso também é normal. “É como a diferença entre uma pessoa extrovertida e outra introvertida”, explica Barnier. “Elas estão apenas vivendo suas vidas no mundo de formas diferentes.”

Da mesma forma que a Hipnose não é tão diferente do nosso dia a dia, ela tem muito em comum com outras ferramentas de intervenção médica. Imagine uma agulha e uma seringa ou um bisturi. Nas mãos erradas, todos têm o potencial de fazer grandes estragos. Mas, em mãos habilidosas, podem ser instrumentos poderosos para fazer o bem.

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